O presidente brasileiro é recebido pelo presidente dos Estados Unidos na Casa Branca. Uma demonstração de apreço ainda que quase todos os chefes de estado que vão a Washington passem por lá. Tem sempre aquela foto tradicional em que estão sentados ao lado de uma lareira e trocam sorrisos para os jornalistas. Nos bastidores, o clima não é tão descontraído. O presidente norte-americano, apesar de pertencer ao Partido Democrata, não vê com bons olhos a onda vermelha que cobre boa parte do continente latino-americano. Além de Cuba, eterna rival, outros países avançaram para a esquerda, uns por meio de eleições democráticas; outros, via ditaduras.

O novo governo tem que enfrentar a inflação. Ela não é privilégio do Brasil. O mundo todo passa por uma crise e os preços dos produtos não param de subir. A crise provocada pela guerra na Europa, dificuldades de exportação de manufaturados e ameaças de novos conflitos encarecem  os produtos. Ninguém escapa da crise econômica e financeira global. A alta do custo de vida atinge principalmente as grandes cidades brasileiras, onde o poder de compra fica cada vez mais frágil. Há inquietação nos assalariados de maneira geral e a esperança de um aumento dos salários, principalmente do salário mínimo, é frágil. A oferta de empregos com carteira de trabalho assinada está em queda e com ela o poder aquisitivo dos salários. O governo federal procura uma estratégia para combater a inflação. O Congresso Nacional, recém-eleito, se predispõe a  aprovar um plano, desde que contemple as regiões mais pobres do país.

Ninguém, até este momento, pode imaginar que é possível juntar opositores e adversários em torno de um ideal comumA intenção é restaurar a democracia no Brasil. Políticos e partidos políticos chegam à conclusão de que é preciso esquecer as divergências do passado. Sem isso, fica difícil tirar do poder o militar que ocupa a Presidência da República. Ele tem apoio das Forças Armadas e boa parte dos conservadores e direitistas. Representa um programa que impede a ascensão de líderes que possam pôr em risco os fundamentos da nação, entre eles a propriedade privada. Há forte reação, principalmente dos proprietários de terras que tiveram suas fazendas invadidas por agricultores aos gritos da implantação de uma reforma agrária. Por sua vez a burguesia industrial teme a volta do fortalecimento dos sindicatos, paralizações da produção, greves por melhores salários e condições de trabalho. Há um forte sentimento anticomunista, o temor que esse regime possa ser implantado no Brasil, como ocorreu em alguns países da América Latina, e Cuba é o maior exemplo.

Os ataques contra o candidato à presidência começaram há cinco meses. Ninguém, com certeza, sabe o que vai acontecer quando for divulgado o resultado das urnas. Nem mesmos os jornalistas políticos que se agruparam contra e a favor do candidato. Há narrativas preocupantes sobre o destino da República brasileira, e teme-se por uma intervenção militar e a implantação de uma ditadura. Há quem afirme que se deve apresentar um candidato militar, de preferência um que tenha experiência e possa conduzir o Brasil em direção à modernidade. O que se almeja nos quartéis é que se cumpra o que está escrito na bandeira nacional: Ordem e Progresso.Para isso, segundo a oposição, é preciso tirar o poder daqueles que dominam o governo há, pelo menos, duas décadas. Há uma clara divisão no mundo político, especialmente na capital do país.

Para ser eleito presidente é preciso o apoio de Minas Gerais. É o segundo estado mais populoso e forte  economicamente. A maioria dos presidentes eleitos teve apoio dos mineiros e isso não muda nesta eleição, segundo os analistas mais conhecidos da capital do Brasil. O chefe político mineiro é considerado um grande eleitor, uma vez que tem conseguido carrear votos em todo o estado para o candidato escolhido. Seu partido tem ramificações nos pequenos municípios que se espalham dos limites de São Paulo até a Bahia. Há quem diga que Minas Gerais é uma síntese do Brasil. Os chefes políticos locais carreiam os votos para os dirigentes estaduais, que, por sua vez, despejam no candidato indicado pela chefia política encastelada na capital mineira. Nada indica que nesta eleição,  tumultuada, a aliança entre os que dominam o agronegócio vai divergir na escolha de um nome que os represente no governo federal.

Há um embate claro entre o presidente e a Suprema Corte. Nunca se viu um confronto institucional como esse desde a implantação da república.