presidente bate de frente contra a política externa americana. Ninguém esperava que houvesse qualquer desencontro entre os Estados Unidos e o Brasil. Afinal, a política externa brasileira é afinada com a do Tio Sam desde a Segunda Guerra Mundial e chegou a ponto de o embaixador brasileiro em Washington declarar que “o que é bom para os Estados Unidos é  bom para o Brasil”. Mas os tempos mudaram e sopram para a esquerda na América Latina, com sua ascensão em vários países. O Brasil quer se posicionar como uma potência média, mas para ser reconhecido precisa dar passos que desagradam aos formuladores de política latino-americana  do Departamento de Estado
O chefe do Executivo tem desejos de ter cada vez mais poder. Ele já é avaliado pelos jornalistas políticos como um líder populista. Sabe falar a linguagem das camadas mais pobres da população, principalmente os operários concentrados em vários bairros da cidade. Ele se entende com os sindicatos e não fecha nem as portas do palácio, nem o cofre público para ajudar essas instituições. Em troca tem o apoio dos pelegos que organizam manifestações, as enchem de gente, confeccionam cartazes e picham as paredes dos muros de prédios públicos ou particulares.
O líder está acostumado com a multidão. Em todo lugar que se apresenta, grupos de apoiadores se aglomeram para participar de carreatas desde o aeroporto até o local do evento. Muitos se contentam com uma foto, um aperto de mão, ou quem sabe um abraço do líder. Afinal, ele promete, desde o início do mandato, arrumar a casa e melhorar a vida da população. Os políticos se aglomeram atrás da figura do presidente, se empurram, trocam cotoveladas e sorriem sem motivo algum. Querem aparecer ao lado do líder na televisão e na cobertura do evento na mídia nacional.
 
Os jornais da capital do Brasil não dão sossego ao presidente da República. Segundo a base de apoio do governo no Congresso, eles incitam a discórdia política, o que põe em risco a estabilidade institucional do país. Exploram com imagens, caricaturas, editoriais e reportagens a composição do Supremo Tribunal Federal. Todos sabem que a instituição foi copiada da Constituição dos Estados Unidos da América, que,  por sua vez, consagra a divisão e a independência dos poderes da República. Também no Brasil a indicação para ministro do Supremo é do presidente da República, mas a aprovação para o cargo depende do Poder Legislativo aprovar ou não. 
O presidente reúne os jornalistas para uma entrevista coletiva. Anuncia que o governo patrocinará a produção de carros populares. A população reclama que os preços estão muito altos e com os juros, também nas alturas, não consegue comprar um veículo. As montadoras transplantadas para o Brasil dão todo apoio ao presidente. Os pátios das fábricas estão lotados e é preciso desovar o encalhe para retomar a produção. É, sem dúvida, uma medida populista uma vez que é transitória e todo mundo sabe que não vai durar. Do outro lado, o governo teme que as fábricas comecem a demitir em massa e isso vai detonar a imagem do governo e do presidente. 
O dragão da inflação não dá sossego para os brasileiros. Toda vez que alguém vai fazer compras no supermercado ou na feira livre, ele, mesmo sem ser convidado, dá as caras. Basta a pessoa comparar rapidamente o preço dos produtos essenciais da cesta básica para perceber que ele mudou. Para cima. A inflação não é democrática, ela é maior para as camadas mais pobres em  tempo de pouca oportunidade de emprego, e está cada vez mais difícil obter renda para sustentar uma família. Popularmente se diz que, graças ao dragão, cada vez sobram mais dias no final do salário.