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Jornalista Maju Coutinho, a "Moça do Tempo" fala de seu livro, carreira e vida pessoal

A jornalista Maju Coutinho fala sobre o lançamento de seu livro, racismo, desejos para 2017 e seguir em frente sem virar rótulo

Ela nasceu em São Paulo, fez faculdade de Jornalismo e especialização em política e relações internacionais. Iniciou a carreira na TV Cultura e passou a integrar a equipe da TV Globo em 2007. Começou a trabalhar com previsão do tempo em outubro de 2013, tendo assumido a previsão do tempo do Jornal Nacional e do SPTV 2ª edição em abril de 2015. Sim, ela mesma, a “Moça do Tempo”, Maria Julia Coutinho, 39.

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Casada com o publicitário Agostinho Paulo Moura, 53,  Maju conta que acha a maternidade linda mas fala pouco com o marido sobre planejamento de filhos “ser mãe não está em meus planos agora, eu estou feliz! As pessoas pensam mais nisso por mim, do que eu (risos). Agostinho faz filosofia, precisa estudar. E, se não vier, filhos, OK, já me sinto realizada afetiva e profissionalmente”, explica, ao ser questionada se não quer ser mãe. majuc7

 

A jornalista criou uma familiaridade com o público toda noite quando surge na sala dos telespectadores para bater um papo descontraído. Com isso, a previsão do tempo ganhou novos ares na televisão após a chegada de Maria Julia Coutinho ao Jornal Nacional.

 

 

De forma didática, Maju ganhou a simpatia do público por  inventar termos como “chuvica” ou por apelidar os fenômenos meteorológicos El Niño e La Nina de “o menino danado” e a “menina levada”, respectivamente. A maneira descomplicada de lidar com o clima rendeu livro, Entrando no clima, que explica frentes frias e quentes, neblinas, geadas, tornados e outras “meteorologices”, e música.

 

No livro Entrando no Clima: chuva, chuvica e outras meteorologices a jornalista segue a mesma linha para demonstrar ao leitor que é possível compreender a meteorologia de forma divertida.  Com a ajuda de especialistas, Maju desvenda conceitos como atmosfera, pressão, geada e névoa e aborda as  principais características das estações do ano. 

 

Além disso, a jornalista debate as mudanças climáticas com dados e informações da Conferência das Partes, de Paris, na qual foi convidada pela Organização Meteorológica Mundial. O livro apresenta também ilustrações, fotos e gráficos para ajudar na compreensão de cada tema, além de trechos de música e ditos da sabedoria popular sobre o “deus tempo”. 

 

No finalzinho de novembro, aconteceu o lançamento da jornalista Maju Coutinho, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. A autora, responsável pela previsão do tempo no Jornal Nacional, estava disponível para entrevistas e batemos um papo super bacana. Vale salientar que Maju – simpática toda vida (como diz o mineiro) foi recebida com aplausos na Coletiva antes do lançamento. A livraria estava lotada, um “mar de gente” inclusive, nas escadas e ela não aguentou tamanha emoção – chorou mesmo, agradeceu muito e ao se recompor, falou sobre como tudo começou, assédios, rotina, enfim, seu atual momento pós vitimização racista na internet.

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Universo de Rose – Por que você escolheu o Jornalismo, Maju?

 

Maju Coutinho – O jornalismo sempre foi muito presente na minha infância e adolescência. Eu sempre brincava de jornalista. Minha mãe sugeriu que eu fizesse um teste vocacional, mesmo eu já tendo me inscrito no vestibular de Pedagogia da USP. Não sei o motivo, mas achei que me daria bem como jornalista – e deu no que deu (risos). 

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UR – Maju, seus looks são incríveis, não tem como não reparar nas roupas lindas que você usa. Como você os escolhe?

MC – Meu figurino é inspirado nas roupas da primeira-dama dos Estados Unidos,Michelle Obama. Quando ficou decidido que eu seria a jornalista que cuidaria da previsão, a figurinista olhou meu biotipo e disse: “Olha, acho que dá para investirmos nos modelos da Michelle Obama, que usa o ombro aparecendo, e dá para usar cores, porque contrasta com a pele negra”. Elas (as  figurinistas) trazem as roupas que combinam mais com meu estilo,  normalmente são vestidos coloridos. Costumo dizer que olhamos para o tempo e acertamos na moda também. A pergunta que eu mais ouço, depois de “Como vai ficar o tempo?”, é “Onde você comprou suas roupas?”. E escolhemos de comum acordo. São roupas emprestadas de loja. Elas trazem, eu experimento, escolho as que batem com o meu estilo e uso no ar. Algumas delas eu compro e ficam para mim, uso fora da TV.

 

 

UR – Você tem sido uma inspiração para mais mulheres negras conquistarem visibilidade também na TV...

 

MC – É muito legal receber esse carinho, mas precisamos de mais um passo. Precisamos de mais mulheres negras na TV. Porque, quando tiverem muitas, você não fica com essa responsabilidade, que é muito grande. Claro que não sou a única, mas precisaríamos de mais, que me confundam, (a ponto de) de perguntarem: “Quem é aquela?” e errarem o nome, assim como erramos os das apresentadoras loiras, que, às vezes, são muito parecidas. Precisamos de proporcionalidade. Precisamos de mais gente para dizer que estamos mais equilibrados. Recebo muito esse retorno. Ontem mesmo, veio uma moça negra aqui na TV, me viu e ficou encantada. Falei que não havia motivos, pois sou de carne e osso, mas ela disse “Não é todo dia que a gente vê a representatividade na frente da gente”. Estamos dando passos, mas eles precisam ser mais largos.

 

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UR – Como surgiu a ideia do livro?

 

MC – No meu primeiro almoço com a jornalista Zirleide Silva, ela levou o amigo, também jornalista Alberto Villas. No dia seguinte, ele me escreveu dizendo que tinha uma amiga que queria me convidar para escrever um livro. Ela me contou que a Planeta, editora espanhola, lançou na Espanha uma obra com o apresentador do tempo mais famoso de lá, explicando o clima para as pessoas e que queriam replicar isso no Brasil.

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UR – E como você desenvolveu o livro?

MC – Contei com a ajuda do coautor, o meteorologista Mauro, Neutzling Lehn, e de outros especialistas. O meu marido era o primeiro leitor, mas para ele estava tudo lindo (risos). Então, passava para familiares e amigos leigos no assunto lerem. Quando alguém não entendia algo, escrevia de novo. Na revisão, período em que tive até pesadelo com parágrafo errado, tive ajuda dos meus pais.

UR – Meteorologia sempre lhe interessou? Ainda mais apresenta-la de forma mais acessível...

MC – Tento trabalhar com a previsão de uma maneira mais conversada. A ideia é falar coloquialmente, como se eu estivesse mesmo na casa das pessoas. Mesmo que seja uma pessoa que você está visitando pela primeira vez, você não vai falar superformal com ela. Vai, dentro da medida, usar uma linguagem mais acessível. É o que tento fazer. Pela minha formação, por ser filha de educadores, sempre discuti em casa essa questão. Quando era repórter, não ligava para a previsão do tempo. Quando comecei a trabalhar com isso, passei a me interessar e a gostar. Achei muito curioso. A cada explicação de fenômeno que os meteorologistas me davam, eu tentava me aprofundar um pouco para entender. A curiosidade foi surgindo ao longo do trabalho, e é algo de repórter: qualquer tema que deem para a gente trabalhar, vamos perguntar por que, como, quando isso acontece. E fiz isso dentro da meteorologia.

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UR – Como é ser referência após se tornar a primeira jornalista do tempo  negra?

MC – Essa dimensão toda é surpreendente e agradeço muito. Sinto isso com o carinho e a admiração com os quais as pessoas falam comigo. Quando você se vê como referência, a sua responsabilidade é maior. Mas levo numa boa, porque sou a mesma pessoa na TV e fora dela. Sempre procuro ser honesta e autêntica.

UR – Como é ser garota do tempo?

MC – Sou assessorada pelos meteorologistas que acompanham nosso trabalho na Globo. Eles analisam as cartas meteorológicas e informam quais os destaques. Minha função é "traduzir", de forma clara, acessível ao público e saborosa, as informações técnicas passadas por eles. Tenho contato também com as emissoras afiliadas que nos enviam reportagens ou imagens de assuntos relacionados ao tempo que podem ser aproveitadas no mapa.

UR – Como surgiu o apelido “Maju”?

MC –  O Chico Pinheiro foi o primeiro a me chamar de Maju e foi repreendido, levou uma bronca. Ele disse “mas se ela é Maria Julia, então eu tenho que ser Francisco. Eu não sou Chico Pinheiro”. Depois veio o Bonner no JN e o rebatizou. Então Maju tem de ser Maju (risos).

UR – E entre outros tantos talentos, você cozinha, né? Eu te vi no Estrelas cozinhando com Angélica... 

MC – Siiiim. Fui convidada para celebrar os 10 anos do “Estrelas” e preparar  um arroz com bacalhau, alcaparras e azeitonas parafestejar com Angélica, Miguel Falabella e Ney Latorraca. Foi bem divertida a gravação com eles (risos).

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UR – Maju, e você alisava o cabelo, né?

MC – Sim (risos), demorou  para assumir o visual natural. Por anos, me submeti a um rito para ser aceita: esquentava no fogão um pente de metal e alisava o cabelo. Fora dos pequenos círculos, era difícil assumir a identidade. Precisa coragem para usar o crespo, símbolo de estar à margem. Nos anos 1990, vi na capa da revista “Raça” uma negra com ar decidido, de tranças afro, enormes e lindas, e falei: Eu quero isso. Funcionou como uma permissão para ser eu mesma. A questão do cabelo é muito forte para mim. Cresci vendo cabelos de mulheres negras alisados na família e na rua. E hoje, quando vejo na rua criancinhas de black power ou mulheres assumindo seus cabelos crespos, considero uma conquista muito grande. Fico feliz de estar vivendo esse momento da história e que minha mãe também esteja presenciando isso, algo que ela não viu quando jovem. Para mim, é histórico e significativo que haja tantas mulheres negras, e jovens mulheres, se movimentando. Isso me deixa muito feliz e esperançosa.

UR –  Recentemente, você sofreu preconceito com comentários racistas na internet. Como você lida com o racismo?

 

MC – Foi muito curiosa essa história, porque quando soube dos ataques, minhas redes sociais começaram a bombar. Eu não senti o impacto no dia, na hora não senti. Desde pequena eu sei o que é sentir isso, meus pais me prepararam para isso. No dia, eu fiquei mais emocionada com o apoio positivo. Eu desabei de chorar em casa – abraçada com meu marido, mas quando vi aquela solidariedade... Isso foi muito impactante na minha vida. Foram publicadosna página do JN no Facebook. Milhares de fãs se mobilizaram em minha defesa, levando a hashtag #somostodosmaju ao primeiro lugar entre os Trending Topic do Twitter no Brasil, além da investigação do crime pela Justiça. Graças a Deus agora, depois de passada toda aquela comoção da época dos ataques racistas, tenho notado que estou conseguindo cada vez mais ser a Maju. Não a jornalista negra, a primeira negra apresentadora da previsão do tempo, porque esses títulos me incomodam um pouco. Eu sou a Maju, que é mulher, brasileira, jornalista, e que também é uma mulher negra. Não quero que o fato de ser negra seja a única coisa que me defina.

 

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UR – Como você aproveita seu tempo livre?

 

MC – Tenho uma vida muito simples e comum. Gosto do cotidiano, de levar a roupa na costureira. Essa é a vida que eu gosto.  Tenho alguns hobbies. Eu faço yoga, e isso é minha válvula de escape. Também gosto de dançar, mas não na balada. Eu danço em casa comigo mesma, sozinha. E gosto ir ao cinema e logo a um café na livraria e ficar lá, lendo revistas e livros. Quando estou de folga, adoro dormir, ler, nadar, ir ao cinema e curtir quem eu amo.

 

UR – Sonhos?

MC – Sonho, agora, com o dia no qual serei apenas uma entre muitas mulheres negras ocupando espaços na TV, sem a necessidade de rótulos como a primeira ou única apresentadora negra da previsão do tempo. Um objetivo para o qual ainda falta muito avançar.  Desejo um país e um mundo mais respeitoso e mais compartilhado. Acho tão legal essa coisa de compartilhamento na internet, de você estar aqui e alugar a casa de um cara lá na Espanha por um preço mais acessível do que o de um hotel. É muito legal, mas exige respeito e integração. Gosto de acreditar que o mundo pode ser assim, apesar das aberrações que a gente vê às vezes...

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UR – Planos para 2017?

MC – Em 2016, me dediquei a escrever o livro, então 2017 vai ser um ano para eu ler mais, sair do raso. Quero ler os pensadores e os ativistas que falaram sobre a questão do racismo, ter mais coisas para falar, e não ficar apenas na minha experiência pessoal. Quero ir além da minha experiência, que é forte, mas precisamos avançar. Mas, se me perguntam sobre racismo, é claro que respondo, mas não quero me tornar escrava desse tema. Reluto com isso..

Fotos: Divulgação Globo / Iwi Onodera, Ego / Maju Coutinho / Carlos Cianci

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Rosângela Cianci

Rosângela Cianci. Jornalista, blogueira, repórter, apresentadora, produtora de TV e idealizadora do site Universo de Rose. Incansável observadora do cotidiano, apaixonada pelo que faz. Ex-Secretária Executiva, sempre lidou com Diretoria e Presidência mas prestes a completar Bodas de Prata na área, resolveu desengavetar um sonho antigo: o Jornalismo. E partiu pra nova luta com 40 (e uns anos), "pois meu negócio é escrever e conversar sobre assuntos de A a Z"...

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