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Marília Gabriela, conhecida como mulher-polvo pela capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo

Além de apresentadora, ela se aventura no teatro, no canto, na literatura e agora na gastronomia e confessa: “sou uma mulher ávida em busca de minha identidade”

Ela soma 47 anos de experiência com mais de 10 mil entrevistas em seu currículo. Marília Gabriela! Começou sua carreira como repórter do Jornal Nacional e hoje é veterana da TV, atriz de teatro, cantora, escritora e agora empresária da área de gastronomia (é sócia de Isaac Azar no restaurante Paris 6).

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A jornalista é mãe de Christiano e Theodoro - e, avó de Valentina. É considerada uma mulher-polvo, ao abraçar diferentes oportunidades e consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo. Aos 68 anos, viveu a revolução do início dos 1970 com os ideais de liberdade, feminismo e protagonismo no trabalho. Foi à luta cedo, casou-se 03 vezes. Gabi – como também é conhecida, vive na ponte aérea São Paulo – Rio de Janeiro, dividindo seu tempo entre o programa do GNT e a peça de teatro "Vanya e Sonia e Masha e Spike", e tem planos de retornar a cantar e escrever novos livros. Incansável, diz que não consegue desacelerar. “Há dois anos cogitei dar uma parada, mas não consegui. Sou uma freak mesmo!”, brinca.

A versatilidade da jornalista que agora se estende como Sócia do Paris 6 Vaudeville, de São Paulo, diz ser fã absoluta de Isaac Azar. “Ele é um geniozinho da atualidade, um grande empreendedor. Porque montou uma rede com a qual atrai assuntos e pessoas do esporte e das artes, que são o universo de seu grande interesse. E ele capitalizou isso de uma maneira interessante, oferecendo vantagens para os seus sócios, e com isso foi crescendo a atraindo mais e mais pessoas”, comenta. Para a apresentadora, isso foi fundamental para entrar no ramo. “Quando eu vi essa habilidade empresarial e essa alegria com que ele lida com tudo, entrei de cabeça e também tenho cotas, junto com meus filhos, na unidade do restaurante em Miami.

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Conhecida principalmente por entrevistar grandes líderes políticos, como Fidel Castro, e personalidades culturais, entre elas, Madonna, ela conta que não fica nervosa ao entrevistar essas personalidades. “Não sou eu quem está em posição vulnerável, é o entrevistado. Sou eu quem faço as perguntas. Não tem por que ficar nervosa”. Ela também relata que o ato de perguntar às outras pessoas é uma forma de se conhecer melhor, pois entende que isso ajuda a se aceitar e encontrar respostas que ela mesma não costuma ter quando se questiona.

Outra conquista é que a voz inconfundível de Marilia Gabriela estará na versão nacional do novo filme da Disney•Pixar, “Procurando Dory” (Finding Dory). A jornalista foi escolhida para dar voz à locutora do Instituto da Vida Marinha (IVM), um centro de reabilitação para animais em quarentena e aquário na Califórnia.  Sua voz será revelada em uma cena que promete divertir o público de todas as idades nos cinemas do país a partir de 30 de junho.

“Para mim o trabalho de dublar um personagem numa animação é uma imensa novidade. Achei o convite muito excitante e adorei ter sido lembrada. Sei que é um desafio grande, mas espero que o resultado agrade tanto a minha neta quanto aos adultos, como eu, fãs de animações”, comenta Marilia.

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Gabi tem uma singularidade plural que faz qualquer conversa se tornar muito rica e desafiante. Confira o bate-papo que rolou, inclusive de sua estreia como empresária de gastronomia, no estúdio do GNT, em São Paulo onde grava o programa para (também) estrelar a capa da revista 29HORAS e o Universo de Rose.

Universo de Rose – Quantas pessoas você já entrevistou até hoje, Gabi?

Marília Gabriela – Não tenho essa conta. Eu tinha um diretor que dizia que eu estava chegando aos dez mil, e isso faz um bom tempo. Acho que é mais do que isso. Eu faço perguntas desde 1969, então tirando os entrevistados famosos, eu entrevistei muitas pessoas que não estiveram na situação de uma hora de programa. Entrevistei desde Henry Kissinger a Shirley MacLaine, passando por Yasser Arafat, Fidel Castro, Dennis Hopper, Luciano Pavarotti,... vários presidentes brasileiros. Passei por aí...  

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UR – Você ficava nervosa ao entrevistar essas personalidades?

MG – Não.

UR – Nem no começo da carreira?

MG – Às vezes eu ficava depois da entrevista, pela situação de perigo que vivia para fazer determinadas reportagens, mas não na hora. Eu sou um animal operário. Eu sou uma trabalhadora. É o “é isso que eu vou fazer agora e vamos parar com isso. Uma vez, no início de carreira, em uma entrevista para o telejornal, eu me lembro que eu estava com a perna tremendo, controlando pra que ninguem visse. Daí de repente eu olhei e vi que o entrevistado estava tremendo. Aí minha tremedeira parou. E eu pensei: Não sou eu quem está em posição vulnerável, o vulnerável é o entrevistado. Sou eu quem faço as perguntas. Então não tenho porque ficar nervosa.” E não fiquei mais.

UR – Antes des ser apresentadora, você fazia o que?

MG – Fui repórter de rua do Jornal Nacional, cobri de treino de futebol a presunto (jargão do jornalismo policial ) e esquadrão da morte. Aos 19 anos, eu saí de Ribeirão Preto e vim para São Paulo trabalhar. Havia começado as faculdades de Psicologia e Artes Plásticas, estava perdida. Meu pai, coitado, estava sózinho e viúvo lidando com as filhas – minha mãe faleceu quando eu tinha 14 anos. Foi quando decidi vir pra São Paulo. Era o primeiro ano do Jornal Nacional e eu vi na TV um repórter numa rua, num país distante, falando pessoas num outro idioma. E eu falei: “É isso que eu quero fazer na vida! Quero fazer perguntas em terras distantes, conhecer culturas diferentes, aprender idiomas e ser paga pra isso”. E foi aí que fui pedir emprego na Globo.

UR – Atriz e entrevistadora. Essas atividades se misturam?

MG – Elas têm em comum uma coisa muito importante que é ouvir bem. Eu me vanglorio disso, acho que aprendi a ouvir muito bem. Ouço bem as pessoas porque tenho uma genuína curiosidade pelo outro e porque procuro respostas para mim também. Faço o que todo mundo deveria fazer todos os dias com todos: ouvir o próximo bem. E isso é fundamental no teatro. Então são duas profissões em que ouvir com propriedade é fundamental. Posso estar com problemas imensos, mas eu sentei na frente de alguém para entrevistar, eu estou ali inteira com todos os meus sentidos ligados no que irei ouvir desta pessoa.

UR – Perguntar sobre o outro também é uma forma de se conhecer?

MG – Sempre. Bom, eu tento. Mesmo porque eu acho que nós estamos em todos os outros. Se eu ficar um pouco mais com você, eu vou me reconhecer em várias coisas suas, dela, dele,... Eu me identifico com os entrevistados em muita coisa. E fico procurando respostas pra mim, inclusive aquelas fundamentais que a gente nunca consegue ter.

Você diria que se ocupa desse monte de coisas para se livrar um pouco desses pensamentos?

MG – Eu não me livro, não me livro. Eu sonho e acordo pensando no que eu sonhei. Esse novo livro começou porque passei a escrever umas coisas lindas lá na beirada da minha cama, olhei no espelho (e eu que não sou de olhar muito no espelho) e me fiz uma pergunta...

UR – O que você sentiu nessa coisa de espelho?

MG – Quem é? Quem é essa mulher que eu não reconheço? Quem é ela? Aí voltei para o quarto, fotografei essa imagem, e fui olhar fotos minhas de variados momentos... só que eu não me lembro desses momentos. Eu vivi a vida inteira com tal velocidade, com tal intensidade, que eu não me lembro deles. Então pedi a uma jornalista para buscar essas memórias, fizemos uma seleção. Vou usar essas memórias pra tentar fazer um livro de ficção sobre uma mulher. Está tudo num pen drive que eu botei num cofre. Ainda não tive coragem para ouvir. Porque eu não quero a boa parte, quero o pior e o melhor. Então vai ter coisa lá que vai me deixar bastante (simula um sufoco com gestos)... e eu acho bom. E desse material quero escrever um livro sobre uma mulher que está buscando a sua identidade pulverizada. Uma pessoa que está desde os 20 anos fazendo televisão e que todo dia alguem diz alguma coisa de você, sempre com uma imagem idealizada, para melhor ou para pior. Eu tenho uma identidade pulverizada, e quero juntar isso numa mulher, que quero criar. Eu espero que dê certo.

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UR – Como você define o seu momento hoje?

MG – De uns dois anos para cá, eu pensei em dar uma parada. Eu trabalho enlouquecidamente e comecei a achar que o tempo passa muito rápido, queria fazer outras coisas. Fui discutir com o analista, expliquei a situação no SBT e fiquei só no GNT. Mas eu sou uma freak mesmo! Não consigo parar. Logo eu estava fazendo a peça e pensando num novo livro. E ainda prometi para a editora Casa da Palavra uma parte nova do livro que lancei em 2008, “Eu que amo tanto”. Dessa vez será também com depoimentos de homens, já que o primeiro fala só de mulheres que perderam a compostura por amor.

UR – Você tem dificuldade de dizer, “não”, Gabi?

MG – Não. Não tenho mais. Eu já consigo dizer não. Tenho dificuldade de dizer não para as minhas vontades, entendeu? Agora por exemplo eu tenho uma vontade de trabalhar com música, ando fazendo aula de canto e quero voltar a cantar. Faço aula de filosofia porque acho que vai me ajudar a fazer o livro, enfim, eu não tenho forças pra dizer não para as inhas necessidades. Já o teatro me dá essa fantástica experiência de discutir a vida de uma forma tão lúdica. Porque ali é onde está a vida: as mazelas, as alegrias. É uma busca que parece que não vai dar em nada, mas eu vou ficar buscando até o último suspiro, entendeu? Por quê, para quê, quem somos, de onde viemos, pra onde vamos?

UR – Você coloca essas questões na terapia?

MG – Não eu desisti (risos).

UR – Terapia funciona?

MG – Terapia funciona, mas você mente na terapia. Eu pelo menos conseguia mentir. Você tem até para si mesmo. Enfim, eu fiz algumas vezes, quando estava muito desparafusada. Então eu fui para a astrologia que eu acho legal e me exime de certas problemáticas. Por exemplo, eu vou lá não com uma pulga, mas com um tatu atrás da orelha. E chego lá e é simplesmente um problema de Saturno que está em trânsito com Marte e tal, e eu saio aliviada.

UR – Marília Gabriela por Marília Gabriela?

MG – Eu faço essa pergunta tão cruel pra todo mundo e você vem fazer pra mim? É cruel mesmo (risos). Eu sou uma mulher do meu tempo, eu sou igual a inúmeras outras mulheres que foram à luta, criaram filhos e foram tomando o seu espaço. E delineando seus limites. Eu sou isso, não tenho grandes segredos. Uma mulher que teve que ficar muito senhora de si para sobreviver. Já chorei no escuro, mas na rua sempre fui o “vamos em frente”. Uma pessoa mais alegre do que triste, de achar mais bonito do que feio. O que não quer dizer que de vez em quando eu não me afunde na lama, mas isso dura pouco. Está vendo, eu sou uma pessoa caótica. Essa é a minha tradução.

SOBRE A 29HORAS: No mercado desde 2009, a revista 29HORAS é uma publicação mensal dirigida exclusivamente aos passageiros que embarcam e desembarcam no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Auditada pela BDO, empresa especializada em auditoria e consultoria, a revista conta com 65 mil exemplares a cada edição.

Crédito Imagens: Divulgação Revista 29HORAS / Disney-Pixar botao voltar

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Rosângela Cianci

Rosângela Cianci. Jornalista, blogueira, repórter, apresentadora, produtora de TV e idealizadora do site Universo de Rose. Incansável observadora do cotidiano, apaixonada pelo que faz. Ex-Secretária Executiva, sempre lidou com Diretoria e Presidência mas prestes a completar Bodas de Prata na área, resolveu desengavetar um sonho antigo: o Jornalismo. E partiu pra nova luta com 40 (e uns anos), "pois meu negócio é escrever e conversar sobre assuntos de A a Z"...

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