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Debora Bloch, de bem com vida sempre: "é preciso se reinventar e manter o frescor da fé."

Ela chegou aos cinquenta anos cheia de vida e beleza. Uma das mais conhecidas e talentosas atrizes de sua geração, celebra 35 anos de carreira. Descrita pelos amigos como “independente, feminina e talentosa”, Debora Bloch se acha “bem mulherzinha, vaidosa, romântica, carinhosa, afetiva, cuidadora,...”, ressalta, e atribui todo o seu sucesso à disciplina e dedicação. “Sou fisicamente afetiva. Gosto de beijar, pegar, agarrar os filhos. E sobre talento, diria que tenho vocação, do contrário, não estaria tanto tempo na profissão. O negócio é se reinventar, não se acomodar e manter o vigor, o frescor e a fé”, ressalta.

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De origem judaica, Debora fala que não é religiosa. “A religião tem um lado que pode ser muito reconfortante para o homem, e que deveria ser um canal com o desconhecido, com os mistérios da vida e a espiritualidade. Mas ela traz junto muita coisa que eu discordo: repressão, guerras, violência. Eu acredito no teatro, acho que exerço a minha espiritualidade através da arte. Acredito que aquilo que você emana você recebe, aquilo que você planta você colhe. Adoro a frase de um filho de uma amiga, que ainda pequenininho disse: “Ah mãe, entendi, Deus é a gente, mas a gente não é Deus!”, explica.

 

Recentemente, Debora se emocionou ao ver a história se repetir com sua filha, Julia Anquier, de seu casamento de 15 anos com Olivier Anquier, terminado em 2006, com quem tem também o caçula Hugo. A primogênita havia ganho um prêmio nos Estados Unidos pela adaptação de um texto para o cinema. E bastaria o prêmio para encher o peito da mãe de orgulho. Mas a adaptação de Julia era de um dos contos que a jovem vira a mãe ensaiando em casa, com o ator e diretor Guilherme Weber. “Achei que ela estava achando aquilo tudo muito chato. Mas você vê o poder que tem uma leitura, um ensaio em casa?”.

 

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Na sala da sua casa, ainda criança, Debora Bloch acompanhava peças de teatro serem criadas ali mesmo – do cenário ao figurino, com direito a muitos e muitos ensaios. Um deles, uma luta de esgrima entre o pai, Jonas Bloch, e o já falecido ator Walmor Chagas, virou um dos momentos emblemáticos para Debora. Foi nesse instante que a menina esperta e sardenta viu o palco como um projeto de vida. É nele que ela vive – e é nele que ela se vê envelhecer. “O teatro é a minha religião, exerço minha espiritualidade através dele”, diz a atriz.

 

O trabalho mais recente da atriz é a peça “Os realistas”, que tem texto de Will Eno, direção de Guilherme Weber e conta com os atores Mariana Lima, Fernando Eiras e Emilio de Mello. A produção fica em cartaz no Teatro Porto Seguro em São Paulo até 29 de maio, e em julho e agosto a peça voltará ao Teatro Maison de France, no Rio. Já na TV, Debora aparecerá ainda este ano na mininovela “Justiça” da Rede Globo, de Manuela Dias e direção de José Luiz Villamarim.

 

A revista 29HORAS, publicação oficial do Aeroporto de Congonhas/SP, destaca em sua capa de abril a entrevista exclusiva com Debora Bloch. A atriz conta como começou sua carreira, a importância do teatro para sua vida, os trabalhos que ela está envolvida e sua opinião como mãe sobre assuntos polêmicos como legalização das drogas e aborto. Em quase duas horas de conversa,  Debora falou de seus 52 anos de vida e do complexo processo de envelhecer, sem deixar de lado assuntos latentes como a crise política no Brasil. Confira!

 

Universo de Rose - Em “Os realistas”, o Will Eno toca em questões contemporâneas, como a falência da linguagem e a solidão. O que a seduziu nesse texto?

 

Debora Bloch - Acho que ele tem duas coisas muito fortes. Hoje se divide no mundo só a alegria, a beleza. Todo mundo é feliz nas redes sociais. Tem uma linguagem contemporânea desses personagens solitários e, ao mesmo tempo, fala sobre a dificuldade de lidar com a finitude. Hoje se divide no mundo só a alegria, a beleza. Todo mundo é feliz nas redes sociais. Cada vez menos as pessoas dividem suas tristezas, seus medos, suas angústias. E tem a questão da doença da incomunicabilidade.

 

UR - Você consegue detectar isso nas relações de hoje?

 

DB - Este é um assunto complexo, né? Tem uma frase da minha personagem que eu adoro: “Aí a gente alugou um barco, eu e o José estamos no barco, e eu achava que a gente ia se afogar, ele parecia que tinha um segredo, um grande segredo. E eu fiquei me perguntando se eu também tinha um. E aí a gente estava rindo, estava tudo ótimo, e aquilo era o certo, só estar juntos e não se afogar”. O exercício do estar junto é bonito e não é fácil. E é uma escolha que as pessoas hoje estão desistindo mais facilmente.

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UR - Como é que você vê o papel das mulheres nas relações de hoje?

 

DB - As mulheres têm as duas funções, elas cuidam da casa, elas trabalham fora... Tem uns homens mais modernos que dividem as funções. Acho bom que a gente conquistou o trabalho e os direitos, mas ainda faltam muitos. Avançamos, e essa última geração cresceu debaixo de alguns benefícios do movimento feminista de uma geração anterior, mas falta ainda muito para conquistar. Surgiu um novo feminismo com a campanha do #meuprimeiro assédio. Ela fez avançar uma série de reflexões, entre os homens inclusive, que ficaram constrangidos.

 

UR - Você concedeu uma entrevista em que revelou ter feito um aborto e se manifestou a favor da legalização. Muita gente viu nisso uma apologia e te recriminou na internet. Você se arrependeu da declaração?

 

DB - Não me arrependo e não tem porque me arrepender. Acredito mesmo que o aborto deve ser legalizado. Não por mim, porque eu faço parte de um grupo de mulheres que, se precisar recorrer a isso, vai ter recurso pra fazer com segurança. Mas a maioria das mulheres morrem fazendo aborto. E é um direito que a gente tem, em qualquer país desenvolvido ele já é legalizado. A ONU colocou o aborto como direito humano. Tenho respeito pelas pessoas que são religiosas, cada um tem o direito de fazer escolha. Eu não sou a favor do aborto, não faço apologia a isso. Nenhuma mulher quer abortar, quando toma essa atitude é por falta de escolha. Agora você vê essa quantidade de mulheres grávidas com zika e bebês com microcefalia. Sou a favor do direito ao aborto, de fazê-lo de forma segura, caso a mulher precise dele. E só tem um jeito disso acontecer: legalizar.

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UR - “Os Realistas” fala muito sobre a finitude da vida. Assusta ver seu pai, por exemplo, envelhecer?

 

DB - Eu não tinha esse medo e não tenho. O meu pai é impressionantemente jovem, tem uma energia, tem uma vida. Mas a gente vai ficando mais velho – a gente, ele e eu – e a vida vai nos aproximando deste assunto. Não dá pra gente viver pensando nisso, senão a vida fica triste. Mas a gente tem que lidar com isso também.

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UR - Como você cuida do corpo?

 

DB - (risos) Ah, é muta ginástica, exercícios físicos... esse é o segredo. Corro na esteira, faço musculação, pilates quatro vezes por semana e também como pouco.

 

UR - Então a sua alimentação é equilibrada?

 

DB - Sim. Eu como pouco e evito frituras, doces e refrigerantes. O resto, como de tudo, mas pouco, sempre em pequenas quantidades. Eu sou bem disciplinada. De vez em quando, eu dou uma escapulida nos finais de semana, mas depois fecho a boca. Já tive essa coisa de comer a cada três horas, hoje não. Não chego a ficar com fome, mas dou uma segurada mesmo.Se quero emagrecer uns dois quilos, evito carboidratos. O lance mesmo é exercício físico. Tem que malhar, queimar calorias, senão...

 

UR - Você sabe cozinhar?

 

DB - Sim, e modéstia à parte, cozinho muito bem (risos). O segredo de um bom prato é achar o ponto certo.

 

UR - Você está com 52 anos e 35 de carreira. Que análise faz dessa estrada?

 

DB - Tem um livro da Susan Sontag em que ela diz que o problema é que, conforme você envelhece, você se sente melhor como pessoa: vai ficando mais livre, madura, sábia. Só que o corpo não acompanha, ele faz o caminho contrário. Envelhecer é uma sensação de rejuvenescer internamente. Sinto que tenho um lado hoje muito mais jovem e mais livre do que com 20 anos. Por outro lado, a vida te diz o contrário. Acho que, ao longo desse tempo, fui tentando fazer escolhas que tivessem a ver comigo. Algumas eu consegui, outras não; de algumas eu me arrependo ou acho que não foram as melhores, mas é o que deu. E a vida é assim, fui aprendendo com elas.

 

UR - Envelhecer, no fim das contas, é bom ou cruel?

 

DB - É bom e é cruel. Não tem é bom ou é ruim: é a vida, envelhecer é a vida, não tem uma escolha. Tem um lado triste, você vai chegando perto do fim, porque sua máquina vai falhando. Ao mesmo tempo, quando vejo Mick Jagger aos 72 anos no palco, a Bethânia, o Caetano, chego à conclusão de que o palco é um bom lugar pra envelhecer. Você vê-los com aquela potência, correndo no palco de um lado para o outro, com as rugas, com a idade deles, mas potentes. É assim que eu quero envelhecer: no palco e potente artisticamente.

 

UR - Receitinha de felicidade?

DB - Não tem segredo e nem receita. Acho que bom humor também ajuda, assim como estar satisfeito com o que está fazendo e os cuidados com o corpo, com a mente, a família, os amigos - que mencionei, além da reinvenção sempre...

SOBRE A 29HORAS - No mercado desde 2009, a revista 29HORAS é uma publicação mensal dirigida exclusivamente aos passageiros que embarcam e desembarcam no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Auditada pela BDO, empresa especializada em auditoria e consultoria, a revista conta com 65 mil exemplares a cada edição. A revista ainda traz a diversificada agenda 29HORAS com um guia completo de 120 programas para todas as horas do mês com peças, filmes e um tour gastronômico pela cidade de São Paulo.


Fotos: Divulgação Rede Glogo / Revista 29horas 


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Rosângela Cianci

Rosângela Cianci. Jornalista, blogueira, repórter, apresentadora, produtora de TV e idealizadora do site Universo de Rose. Incansável observadora do cotidiano, apaixonada pelo que faz. Ex-Secretária Executiva, sempre lidou com Diretoria e Presidência mas prestes a completar Bodas de Prata na área, resolveu desengavetar um sonho antigo: o Jornalismo. E partiu pra nova luta com 40 (e uns anos), "pois meu negócio é escrever e conversar sobre assuntos de A a Z"...

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